17 de dez. de 2011

LERO-LERO DE BOLERO

Como preconiza o manual do moderno marombista juramentado eu também, às vezes, vou para a academia de ginástica devidamente conectado com meu Ipod. Uma distração para fazer passar o tempo naquela fieira de séries e repetições que os professores impõe aos seus alunos naquela tentativa, o mais das vezes vã, de nos fazer perder alguns quilinhos. Na verdade, graminhas.
Foi com esse intento que hoje liguei minha maquininha de ouvir musica e, visitando o menu onde elas estão catalogados de diversas maneiras escolhi, Gênero. E neste item tenho-as para todos os gostos, desde clássicas até bregas passando por rock, samba, forró, nativistas, gaúchas, pop, clássica, ópera, tango... é só escolher e dar o play. Foi aí que descobri quase cinqüenta boleros perdidos entre tantas “modernuras”. Dei logo de cara com Lucho Gatica se rasgando todo para contar “la historia de un amor como no hay otro igual” e daí segui em frente enquanto abaixava, levantava, puxava e empurrava halteres e aparelhos, na verdade maquinas de tortura que não fariam feio nos tempos da Inquisição, mas que nos, escravos da opinião publica, pagamos caro para sermos massacrados. Coisa de malucos...
Enquanto mandava ver no “leg press com agachamento”, “extended arm”, “crucifixo com supino”, “cadeira abdutora”, “cadeira adutora”, “rosca inversa no pull” e outras maravilhas do repertório dos cultores da beleza física ia rememorando quantas e quantas vezes dancei em outros tantos bailes nos distantes tempos de minha da mocidade. E, confesso, me trouxeram uma saudade imensa daquilo que chamávamos de baile, reunião dançante, festinha...
Tudo era motivo para encontrar os amigos, e principalmente as amigas, as gurias. Não era preciso muito, até um simples arrasta-pé na casa de alguém com uma vitrolinha tocando já era motivo para que se dançasse.
Dançasse... A gente se reunia para dançar, e namorar. Aliás até hoje tenho a impressão que dançar era tão somente uma justificativa para namorar. Namorar dançando juntinho, com o rosto colado (isso nem todas permitiam, só se fosse namoro sério) soprando na orelha da amada aquelas bobagens gostosas que só o amor nos inspira. “Bailando com la china amada” qualquer um vira poeta.
E qual o fundo musical para esses arrulhos amorosos? O bolero. Claro que só poderia se esse o ritmo que embalasse nossos sonhos e desejos. O samba é animado mas se presta mais a saracoteios alegres. Os outros concorrentes na época eram o fox, a valsa, o blue, o baião, a marchinha (essa só no carnaval) e o tango. Este ultimo não tinha muito prestigio acho que por ter sido considerado como “una musica que se baila con la cara triste y el culo alegre”. Isso tudo fazia do bolero o rei dos salões na segunda metade do século passado, Mesmo com o surgimento do rock na década de cinqüenta com Elvis Presley, The Comets e a guitarra elétrica seu prestigio se manteve inabalado por muitos e muitos anos. Às vezes o bolero se disfarçava num rock romântico ou num samba canção mas, lá no fundo estava o velho bolerão mesmo cantado em inglês ou português.
Hoje tudo mudou. Os jovens já parecem não ter muito interesse no sexo oposto e dançar se transformou num exercício aeróbico praticado independente de par ou companhia, dançado (?) como num desafio de contorcionismo cheio de caras e bocas. No dizer deles, “uma coisa mais tribal”.
O escriba aqui, como antigo que é (velho não: classico) continua adepto do lero-lero do bolero e pede ao disk-jockey (DJ é papagaiada):
- Maestro, manda aí mais um bolero que eu camperar o sonho nos braços desta guria...
 

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